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Não, nem todos somos preconceituosos

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 26.03.17

 

 

Uma frase que me incomodou, a propósito dos comentários televisivos sobre o preconceito cultural de Dijsselbloem: Todos somos xenófobos e preconceituosos. Depois de uns mimos sobre os holandeses que não vou repetir.

A sério? Somos todos xenófobos e preconceituosos? Não, nem todos somos xenófobos e preconceituosos.

Dos holandeses nas praias do Alentejo, que prefiro ao Algarve, guardei os sorrisos, a descontracção, a amabilidade. A simplicidade de quem aprecia a vida. E nisso não se distinguem das pessoas comuns de qualquer país europeu. Ou de qualquer região do planeta.

 

O preconceito cultural surge-nos mais frequentemente nas elites e nas instituições. Não nas pessoas comuns. A não ser que lhes repitam, nos discursos oficiais e nos media, que a culpa da austeridade (neste caso específico) é destes e daqueles por isto ou por aquilo.

Dijsselbloem transmite a cultura de uma instituição europeia que, cinicamente, passou a informação errada sobre a austeridade às populações que diz representar.

Dijsselbloem representa, na verdade, os interesses financeiros. De uma Europa que tem a lata de proteger, no seu próprio coração, fugas de capital e evasão fiscal.

É essa a grande mentira e cinismo que Dijsselbloem representa, embrulhada no preconceito cultural e no bullying político: culpabilizar as populações (dos países intervencionados), humilhar as populações (Grécia), e mantê-las no double bind, a aceitar continuar a alimentar a máquina financeira.

 

É esta a descodificação cultural que temos a responsabilidade de promover nos media e nas redes sociais. As pessoas comuns, as que foram sujeitas a esta inconcebível praga cultural, têm direito a respirar de novo e a apreciar a vida.

E os responsáveis europeus terão de se adaptar e depressa, se não querem desmantelar o melhor que a Europa nos pode trazer a todos: paz, segurança, prosperidade. Que só é possível em democracia e colaboração.

Dijselbloem não tem lugar nessa nova cultura europeia, mas tem uma carreira promissora no grande banco onde a crise financeira começou.

 

 

 

publicado às 12:47

A descodificação cultural no Prova dos 9 (TVI24)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 25.03.17

 

 

Gosto de acompanhar o Prova dos 9 sobretudo pelo debate entre Fernando Rosas e Paulo Rangel. Silva Pereira aqui funciona como o moderado.

Onde é que entra aqui a descodificação cultural? A descodificação cultural como a capacidade adquirida pela experiência (de quem está receptivo a ouvir os outros e a aprender com a interacção), de identificar a mensagem de base e desmontar a agenda de discursos, acontecimentos, decisões políticas, financeiras, etc.

Podemos ser levados a pensar, por exemplo, que o debate aceso entre Fernando Rosas e Paulo Rangel se deve a pertencerem a famílias políticas diferentes. Na perspectiva de Paulo Rangel, isso verifica-se, pois tem uma atitude reactiva às afirmações de Fernando Rosas, ligando de imediato as suas opiniões à "extrema esquerda". Mas a análise de Fernando Rosas é a do investigador que procura ser objectivo, imparcial, distanciar-se do objecto de estudo para melhor o compreender.

Relativamente a Dijsselbloem, Fernando Rosas descodificou a mensagem, revelou tratar-se de uma ideologia neo-liberal que promoveu a austeridade nos países intervencionados sobre quem continua a exercer pressão psicológica baseada em preconceitos culturais, e identificou esta perspectiva austeritária na direita e numa parte da social-democracia europeias.

Esta análise parece-nos uma evidência. Compreende-se o desconforto de Paulo Rangel e até mesmo de Silva Pereira.

A social-democracia esvaziou-se na austeridade. É por isso que está a ser penalizada nas eleições. Os partidos ou movimentos que vão captar a atenção dos eleitores serão os que apresentarem uma perspectiva mais pragmática e eficaz, e terão de ser credíveis. Basear-se-ão em equipas e não numa liderança personalizada. 

 

 

 

publicado às 13:04

 

 

Não me admirava nada que o presidente do Eurogrupo, título pomposo para um funcionário da UE que preside a um grupo de ministros das finanças, já esteja na lista das persona non grata em todos os países do sul. Não me parece que possa vir a ser bem recebido se pensar em vir cá passar férias. :)

Para a personagem os povos do sul gastam dinheiro em copos e mulheres e depois vão pedir dinheiro emprestado aos do norte. Os do norte foram solidários blá blá blá... O simplório cultural, além de não perceber nada de finanças, também não nos conhece.

 

Na perspectiva de uma análise psicológica, trata-se de bullying político, violência verbal contra um bode expiatório de que se serve para confirmar o seu poder e influência e/ou para compensar uma frustração por ter visto o seu partido político encolher drasticamente nas eleições holandesas e/ou porque lhe está na natureza de sádico obsessivo.

 

Quando os próprios funcionários da UE são os transmissores de preconceitos culturais (e já não é o primeiro caso, já aconteceu com altos funcionários), a possibilidade de uma Europa unida, democrática, dinâmica, próspera, virada para o futuro, torna-se mais remota.

Neste caso, em que a personagem não foi eleita, penso que o mínimo que os responsáveis pela sua nomeação devem fazer é apeá-lo quanto antes. Que vá exercer a sua função de bullyer para um local onde não faça muitos estragos, olha por exemplo, o grande banco onde todas estas personagens acabam a sua carreira. :)

 

 

 

publicado às 20:19

 

 

Foi a ouvir ontem o "Economia das coisas" de Paulo Pinto, na Rádio Renascença, que me inspirei a voltar a este cantinho de vozes dissonantes.

O economista Carlos Farinha referiu-se aos indicadores "linha da pobreza" e "linha da riqueza". O economista do ISEG refere ser mais fácil definir a linha da pobreza do que a linha de riqueza, como se para esta o céu fosse o limite. :)

 

Neste cantinho achamos que é fácil definir a linha da riqueza: está na sustentabilidade, nos recursos disponíveis de uma população. Uma população que hoje, no século XXI, tem de ser considerada globalmente, a população mundial.

Foi assim que se conseguiram definir limites para as emissões de CO2 e é assim que temos de começar a pensar relativamente aos recursos e ao seu acesso e utilização pela população.

O acesso à água potável, aos produtos agrícolas, à habitação, a cuidados de saúde, à energia, à ciência e tecnologia. Estas passam a ser as condições básicas de uma vida com qualidade.

 

Uma sociedade inteligente é aquela que procura o equilíbrio, a sustentabilidade. Não se trata de limitar o ânimo empreendedor e criativo, a vontade de enriquecer e expandir um negócio. O limite é o equilíbrio e a sustentabilidade, a todos os níveis e em todas as fases da produção da riqueza. E os próprios consumidores farão parte dessa correcção natural.

 

Já todos percebemos que os governos e a finança apenas agravaram as desigualdades económicas. E o pior foi terem-no feito na fase da austeridade. A CE, o Eurogrupo e o FMI, o tripé disfuncional, deixaram para trás sociedades desiguais e divididas. Portugal teve sorte, apesar de tudo. A Grécia ficou a pedalar em seco numa pobreza sem fim à vista para a maior parte da sua população.

 

Num futuro próximo a questão não se irá colocar na distribuição da riqueza, mas sim no acesso e na utilização dos recursos disponíveis.

A nova economia basear-se-á nos recursos e não na moeda. A economia monetária provou não servir o trabalho, apenas o colocou dependente da renda, da finança. Ora, o trabalho (e aqui incluímos tudo o que é contribuição para melhorar os recursos disponíveis e a sua utilização), terá de se libertar desta lógica disfuncional, distorcida e desequilibrada.

O UBI (universal basic income) pode ser interessante e útil nesta fase de transição, mas já não surge como uma proposta radical. 

A nova economia, como a perspectivamos neste cantinho, seguirá a lógica do equilíbrio e da sustentabilidade a todos os níveis e em todas as fases da produção da riqueza.

 

 

 

publicado às 08:20


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